17 abril 2015

IMAGO - CAPÍTULO lV

O DESCONHECIDO SE APRESENTA



Mesmo alguns transes suscetíveis à vida seguem padrões característicos. Guilherme voltava à casa do pai psicanalista, assim o rotulava enquanto abria a porta que dava entrada para a cozinha, após caminhar errante por ruas e avenidas, amaldiçoando, sempre que possível, as péssimas condições das calçadas e pavimentações.
            – Cidade dos Príncipes, uma ova !
            A tarde já prenunciava a noite, e Guilherme sabia que, àquela hora, o pai estaria em seu escritório debruçado sobre livros e anotações. Como sempre ocorria nas circunstâncias em que ele se encontrava, a raiva se dissipara, mas sentia cada vez mais alto o muro que se interpunha entre ele e seu pai. Abriu a geladeira, serviu-se de um copo de iogurte com cereal e seguiu para seu quarto e refúgio, não sem antes observar que o pai bebera bem mais de meio litro de seu uísque e companheiro de todo dia. Na verdade, de todos os dias depois do falecimento de sua mãe. Antes da trágica morte da esposa, Leandro jamais pusera uma gota de bebida alcoólica na boca.
            – A bebida entorpece os sentidos, meu amigo! – ouvia-o dizer aos esporádicos visitantes de sua casa, algo entre sarcástico e resignado – e eu preciso entorpecer o que sinto, do contrário, receio que vou estourar. Veias, artérias, peito, tudo pelos ares. – e tornava a se servir de uísque, o olhar derrotado mirava o copo, a bebida brotando nele.  Quando não havia ninguém, não falava, mas sua expressão era igualmente sarcástica e resignada. Entretanto, jamais perdia a lucidez, não se permitia essa violência ou covardia. Leandro recebera uma educação familiar rígida, mas sensata, pautada não na esterilidade das palavras, mas no exemplo vivo de cada ação paterna.
            – Guilherme? – alguém lhe chacoalhava o corpo, inerte por doze horas ininterruptas de sono. Seu pai, dificilmente, entraria em seu quarto sem chamá-lo do lado de fora e sem esperar sua permissão para entrar. Esse era um código sacrossanto para ele: não invadia a privacidade do filho como não tolerava o contrário. Guilherme deu um giro no corpo e se pôs de barriga para cima. Esfregou os olhos e viu um rosto que não lhe era estranho, porém era quase impossível acreditar naquela aparição, ainda mais estando ali, de pé, em seu quarto. Tornou a esfregar os olhos e se viu forçoso a crer.
             – Tia Cândida?! – Há mais de dois anos que Guilherme não a via. Ironicamente, desde sua vinda para a maior cidade de Santa Catarina, adotada como morada pela tia há mais de 10 anos, jamais a encontrara. Das poucas vezes em que ela fora  à casa do irmão, o jovem ou estava no GEMA ou se encontrava em suas aventuras errantes. Lembrava-se da tia no período da morte de sua mãe, consolando o pai que chorava em seu ombro de irmã mais velha. E tinha, ainda na lembrança, a última visita que ela fizera ao irmão há, aproximadamente, três anos, quando insistira veementemente para que Leandro viesse  com ela e fixasse residência, segundo a tia, na melhor cidade do país para se viver.
            Foi digerindo esses pensamentos que Guilherme chegou à constatação de que não nutria por tia Cândida os mais nobres sentimentos de ordem avuncular. Era-lhe quase impossível não associar sua figura a alguma grande e particular tragédia. E arrematou a sentença: A tia, definitivamente, era um arauto de calamidades. Por conta de tão débil efusão do sobrinho, Cândida limitou-se a um sorriso canhestro, sentou-se à beira da cama e, logo, fez jus à análise do rapaz.
              – Bom vê-lo, Guile! Como você cresceu! – A saudação vinha carregada de um tom de voz e expressão facial que pressagiavam desgraça. – Gostaria de reencontrá-lo em ocasião mais agradável, meu querido! Precisamos ir ao hospital. Seu pai sofreu um AVC ontem à tarde e está internado. – Cândida conhecia bem aquelas feições de espanto e dor estampados no rosto do rapaz. Os dentes superiores e inferiores a morderem-se, movimentando, fremente, o maxilar. As pálpebras imóveis. Guilherme era, naquele momento, um avatar da própria mãe – Recebi a notícia – continuou ela – assim que Leandro foi socorrido pelo médico-plantonista, que é também um amigo de trabalho de seu pai. Minha intenção era avisá-lo antes, mas eu não consegui encontrá-lo. Você precisa se vestir, Guilherme!
            Cândida sabia que o sobrinho não ouvia suas últimas palavras, mas nela, também, agia o germe psicanalítico, lições de Leandro assimiladas à força. O analista lança um tema cáustico e passa metodicamente a tergiversar, o que causa no paciente a impressão de banalidade deste tema, trazendo-lhe, assim certa tranquilidade e receptividade frente à matéria da sessão analítica.
            Mas como a psicanálise parece não ser uma ciência exata, e sendo Cândida uma pedagoga, Guilherme estava longe de se sentir tranquilo com a bombástica notícia. No fim da tarde de sábado, ao chegar à mais silenciosa  casa de toda a rua, Guilherme tinha consciência de um muro inexpugnável erguido entre seu pai e ele. Agora o muro fora demolido, ruíra por completo. Entretanto a dificuldade em estabelecer uma comunhão com o pai tornara-se ainda mais árdua. Talvez estivesse agora descartada qualquer  possibilidade de conexão entre ambos. O muro da discórdia tombara com todos os inúmeros tijolos de palavras ditas e malditas, colunas de concreto e ferragens de palavras não ditas. Tudo caíra sobre ele, esmagava seu corpo, tornava sua respiração pressurosa. Metaforizava as vítimas de terremotos que assolaram alguns países nos últimos meses. Sim, Guilherme fora atingido por um abalo sísmico de proporções avassaladoras. Um acidente vascular cerebral deixara-o soterrado, sem chão. Sobre ele, entulhos de incompreensão e intolerância. Levou ambas as mãos à cabeça, comprimindo os ouvidos.
             – Meu pai! meu pai!
            O pouco tato psicanalítico da tia desaparecera, provavelmente frustrado pela falta de préstimos. Cândida, o braço forte da família, era quem, sentada ao lado da cama, abraçava o sobrinho desolado. O choro copioso encontrou um ombro para dar vazão à dor. Para despeito de toda e qualquer ciência, nenhuma terapia pode suplantar o efeito analgésico das lágrimas.
            Às dez horas da manhã, Guilherme se encontrava à beira de um leito de uma UTI. O pai estava cercado por uma parafernália de aparelhos, entre oxímetro, ventilador mecânico, monitores cardíaco e de pressão arterial, fios fixados no peito, tubo na boca, com um cadarço, uma sonda fina fixada no nariz (e que Guilherme, posteriormente, veio a saber, ia até o estômago), uma considerável quantidade de soros e, também próximo à  cama, um desfibrilador automático. Leandro parecia dormir profundamente. De fato, era um  coma profundo. Cândida que acompanhara Guilherme até aquele momento, deu-lhe dois leves tapas no ombro e achou mais acertado para as circunstâncias, deixá-lo, por um tempo,  a sós com o pai. Próximo ao paciente, uma enfermeira fazia as averiguações de rotina.
            – Bom-dia, meu jovem! Sou a enfermeira Matilde e prometo que trataremos muito bem de seu pai. Se achar melhor você pode ficar junto à cabeceira do leito. O uso dos equipamentos não impede que você se aproxime, converse e toque no paciente, se for de sua vontade. Se tiver alguma dificuldade, peça ajuda, ok?! Ah, sim, quero deixá-lo a par do horário específico de visitas a partir de amanhã que deve ser entre as 15h e 16h, certo?! – A enfermeira saiu dali a instantes.          A ele restou olhar o pai, agora imerso na inconsciência. Ironicamente, pensava ele, o pai que sempre a teve como objeto de seus estudos, estava agora mergulhado no vazio da inconsciência.
            – Perdoe-me, pai! Guilherme tocava a face de Leandro, e em autopunição lembrava que há anos não tinha uma relação afetiva mais terna com o pai, há anos não o abraçava, muito menos lhe tocava o rosto como fazia nesse instante.
            Na verdade, a mortificação parece ser o único caminho para quem ama, mas, por não saber como proceder com esse sentimento, percebe que pôs tudo a perder. Tal qual a pessoa que encontra uma enorme e pesada arca, obviamente, cheia de riquezas imponderáveis, mas ainda desconhecidas, porque a tampa da arca resiste à pressão das mãos, braços e pernas que se esforçam por abri-la. Esta pessoa atormentada, então, na insistência por violar a caixa, lesiona os membros, fere as mãos, contunde a coluna vertebral, e, exangue, cai por terra, desmaia de exaustão. Não percebe ela que ao simples toque de um pequeno dispositivo, posto na borda inferior da tampa, mas não oculto,  a arca pode ser aberta com facilidade e seu conteúdo exposto para o regalo dos olhos e da alma. Assim sentia-se Guilherme vendo o pai, a quem conferia, agora, a identidade de uma arca hermeticamente fechada.
            – Pai, pai...
            Guilherme chorava, mas sem soluços nem convulsões, os quais, normalmente, acompanham o sofrimento humano. Caminhara de costas, como um autômato, até o limiar da porta e ali estacara inconsolável. Outra vez, dois leves tapas em seu ombro, depois a mão solidária repousa-lhe na nuca. Não se virara, pois deduzira tratar-se da tia que voltara ao quarto.
            – Você está bem? – a mesma voz aveludada da noite de sexta-feira. Porém era algo inconcebível, ele, o desconhecido, naquela UTI em que seu pai vagava entre a vida e a morte, oferecendo de novo sua caridade, fazendo-lhe a mesma pergunta da véspera.
            – Você aqui? Afinal, quem é você? – Guilherme já não tinha lágrimas nos olhos, seu estado emocional sofrera uma transformação abrupta e reflexiva. Continuava voltado para o leito do pai, mas girara o tronco para trás na direção do seu estranho protetor.
            – Meu nome é Rônalde, mas gosto de ser chamado de Rôni, por motivos óbvios, não?!  – Ele estendia a mão com a intenção de selar a apresentação, os lábios insinuavam um sorriso discreto e condolente.
            – Guilherme! Guilherme Siqueira! Este é meu pai, Leandro Siqueira. – A apresentação do pai tornou a comovê-lo, produzindo em seu lábio inferior um ligeiro tremor, contido com dificuldade.
            – Não se preocupe, tudo vai ficar bem! – Rôni pôs as mãos firmes sobre os ombros de Guilherme e agitou-o, em movimentos curtos e rápidos, para a frente e para trás, como se seu intento fosse expulsar do outro aquele estado de depressão e dor.
            – O que você faz aqui? – Guilherme lançou a pergunta, não acreditando na promessa do novo amigo.
            – Tenho um tio sexagenário que também está internado neste hospital. Problemas cardíacos. Quarenta cigarros diários, sedentarismo. Sabe como é! Posso chamá-lo de Guile? – desconversou ele – ouvi seu "amigo" chamando assim, ontem à noite.
            Novamente, ele usava a mesma mímica de sua primeira aparição, erguendo ambos os braços e  expondo os dedos médio e indicador em gancho, num movimento repetitivo, simbolizando as aspas da palavra amigo.
            – Claro! – disse, automaticamente, Guilherme. – Na verdade, prefiro ser chamado de Guile. Queria lhe agradecer o que fez por mim ontem à noite. Não é nenhum exagero dizer que lhe devo a vida. É uma pena que ele não pode vê-lo agora. – lamentou Guilherme voltando a olhar, inconformado, o pai imóvel no leito. – Ele não deu crédito a minha aventura noturna, menos ainda quando falei da sua aparição heroica. Fiquei furioso com ele, mas – Guilherme sorria enquanto falava – pensando bem, é realmente uma história difícil de se acreditar.
            – Pela minha experiência de vida, creio que você ainda testemunhará muita coisa difícil de se acreditar.
            – Você é realmente muito estranho, Rôni. Fala como se fosse um idoso. Afinal que idade você tem? 
            – Daqui a quatro meses, faço 17 anos, meu jovem. – Ele falava forçando a voz e arqueando à frente o corpo, em uma péssima imitação de um velho cansado pelo peso dos anos. Riram ambos, o quanto permitiam as circunstâncias.
            – Pois daqui a quatro meses, no dia 21 de novembro, para ser mais específico, eu também faço 17 anos de idade. Creio que chegarei às bodas graças a você. 
            – Como disse, tenho experiência de vida, sou bem mais velho que você, já que faço aniversário no dia 12. Quando você nasceu, eu já tinha nove dias e nove noites de vida plena e exaustiva.
            Olharam-se, satisfeitos com o conteúdo banal da conversa. Aos dois, a sensação que transparecia era a de serem amigos desde antes mesmo de nascerem. Era evidente que a afeição que tão rápido os uniu se prolongaria por um tempo indeterminado. Estavam, na verdade, intimamente ligados pelo mesmo súbito desejo de estender aquela amizade para sempre. De repente, Guilherme teve um sobressalto, pediu a Rôni que aguardasse um segundo, pois ele queria apresentar-lhe a tia. Não disse, mas, de fato, ele desejava que  outra pessoa o visse em carne e osso. Tão rápido saiu da sala, da mesma forma voltou, chamando insistentemente pela tia que seguia atrás dele. Ao chegarem à entrada do quarto da UTI, encontraram apenas Leandro, inerte e resguardado por todos os aparelhos já citados. Rôni saíra de novo sem se despedir e sem avisos. Se era nobre por ajudar estranhos a ponto de arriscar a própria vida, era também bastante deselegante no trato social e nas normas de etiqueta. Inexplicavelmente, voltaram-lhe a dor e a sensação de impotência frente ao estado clínico de Leandro, com a agravante do embaraço perante a irmã de seu pai que, em uma tentativa embaraçosa, improvisava uma teoria ao mal-entendido. Depois, desconversando, sentenciou:
– Você vai ficar alguns dias em minha casa. Certo, mocinho?